Treinos de Sono – Por que NÃO fazer. Position Statement Rede Amamenta.

Treinos de Sono – Por que NÃO fazer. Position Statement Rede Amamenta.

Recentemente, foi bastante partilhado, nas redes sociais, um artigo defensor dos treinos de sono, com promessas de noites ininterruptas, quase desde o nascimento. Sentimos necessidade, devido ao elevado número de questões e dúvidas sobre o tema, de definir a nossa posição – minha, enquanto profissional na área do sono, que escrevo em nome de toda a Rede Amamenta.

Primeiramente, e porque é importante saber de quem vem a informação, apresento-me: o meu nome é Andreia Neves, trabalho no Laboratório de Medicina do Sono do Hospital de São João, no Porto; sou Técnica de Diagnóstico e Terapêutica em Medicina do Sono, Professora do Ensino Superior da Unidade Curricular de Estudo do Sono, e trabalho com sono infantil na Amamenta Porto.

Podemos começar pela definição de insónia, que foi uma questão tão colocada pelas mães. Insónia, definida pelo CIDS (International Classification of Sleep Disorders – 3) é “Dificuldade repetida em iniciar, manter e consolidar o sono, em condições ambientais normais, com redução patológica do tempo e/ou qualidade do sono e perturbação do período diurno”. Ora, nem estes bebés têm redução patológica do tempo e/ou qualidade de sono (o que só é medido/qualificado em laboratório – esse é o meu trabalho), nem, na esmagadora maioria dos casos, estes bebés têm disfunções diurnas ou distúrbios de desenvolvimento devido aos despertares noturnos – portanto, não se trata de insónia!

Segundo ponto, os despertares noturnos  fazem parte da fisiologia normal do sono dos bebés e, em algumas fases do desenvolvimento do bebé, eles são desejáveis. Não há nenhum artigo científico válido que diga que um bebé (recém-nascido ou mesmo de 6 meses) deve dormir a noite toda. Além de que o conceito de “noite toda” é muito, muito relativo.

E sim, é verdade. A American Academy of Sleep Medicine defende que o método de extinção (não atender à chamada) é eficaz no tratamento de problemas comportamentais relacionados com o sono. Mas também diz que a extinção gradual (atender a chamada da criança, mas em intervalos controlados e cada vez mais longos), com presença parental, é mais eficaz do que a extinção modificada (ignorar a criança até de manhã). Mas, é igualmente importante referir que esse mesmo documento refere que a adoção de rotinas favoráveis ao sono e as medidas de higiene do sono são muito importantes e eficazes no tratamento de despertares noturnos e outros problemas comportamentais noturnos.

O documento supracitado apenas refere que este método é eficaz, que faz as crianças dormirem mais horas. Mas não fala de consequências. E se alguns artigos/estudos referem não existirem consequências, outros tantos há, que demonstram o contrário. Por exemplo, Beifers et al (2013) demonstram que crianças que dormem sozinhas e cujos chamamentos não são atendidos, apresentam maiores níveis de angústia e de stress e as suas vocalizações negativas são mais frequentes. Gunnar MR, Donzella (2002) demonstram maiores níveis de cortisol em bebés sujeitos a treinos de sono. Middlemiss et al (2012) também refere alterações nos níveis hormonais quando não há resposta da mãe durante o choro noturno. Portanto, sobre os possíveis efeitos dos treinos de sono, e uma vez que não se tratam de estudos longitudinais, não podemos afirmar, com tanta certeza, que não existem e que não afetam o desenvolvimento emocional da criança.

Além de tudo o que escrevi acima, seria impossível não falar da minha experiência. Primeiro, são raros os casos de efetiva doença do sono. Na grande maioria dos casos, existe uma dificuldade com o sono, não uma doença. Essa dificuldade pode ter origens imensas. No meu trabalho fora do meio hospitalar, posso dizer-vos que, só conhecendo aquele bebé, aquela mãe, aquela família, é que podemos trabalhar com eles e para eles. Conhecer o que pode estar a causar aquela dificuldade, descobri-la e, respeitando as necessidades daquele bebé, resolvê-las em conjunto com os pais. Se os meus resultados são imediatos ou em 5 noites? Não. Não são. Porque procuro a causa, não foco no comportamento, mas no que aquele bebé/criança me/nos está a tentar dizer com aquele comportamento.

E parece-lhe que faz sentido entrar em guerra com o seu próprio filho? Um dos estudos que referi acima, demonstrava, também, que, mesmo em bebés que já não choravam para chamar a mãe, os níveis de cortisol mantinham-se elevados. O que quer isto dizer? Se estiver em sofrimento e ligar à sua melhor amiga três noites seguidas, e ela não lhe atender, vai deixar de ligar. Mas não irá fazê-lo porque já não precisa dela – irá fazê-lo porque sabe que ela não lhe vai atender – mas continuará em sofrimento. Faz sentido usar estas práticas com os seus filhos? Os treinos de sono implicam choro, implicam sofrimento.

Poderia continuar indefinidamente a escrever sobre este tema, que é tão importante para mim, mas penso que já deixei aqui algumas informações para que possa pensar.

Quero dizer às mães que fizeram ou fazem treino de sono, que eu sei que acredita estar a fazer o melhor para o seu bebé e que lhe custa, tanto a si como ao seu bebé, e sei que não lhe deram alternativas – mas há. Há outras formas de se harmonizar com o sono do seu bebé, sem deixar de responder às necessidades dele.

Um beijinho e um xi a todas as mães com dificuldades com o sono dos seus bebés ?

Andreia Neves

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