Super Nanny

Super Nanny

Muito se tem falado sobre um recente programa exibido pela SIC – Super Nanny. Tenho acompanhado com muita preocupação todo este processo mesmo antes de o programa ir para o ar.

Primeiro de tudo, este é um tema que deve interessar a todos e não só aos profissionais que trabalham com crianças. Decidi também, depois de já ter enviado email à estação televisiva, ação que incentivo todos os que não concordam com o formato a fazer, escrever publicamente sobre o tema.

Antes de criticar, dizer que sinto uma profunda empatia pela família, pela mãe, pela avó, pela criança. Aquela mãe faz o melhor que pode e sabe, aquela mãe está convicta de que está a fazer o melhor para a sua filha. O mal está nos profissionais com que se cruzou.

Além de a Psicóloga, e não psicóloga clínica, utilizar metodologias completamente comportamentalistas e obsoletas preocupa-me a exposição e humilhação à qual foi sujeita esta criança. Como é que uma sociedade, que tem por obrigação proteger a criança, coloca a sua vida, as suas dificuldades, como entretenimento em horário nobre?
Isto é algo que me preocupa realmente. Sim, há outro tipo de programas que se baseiam na exposição da vida privada mas são programas com adultos, adultos que decidiram estar ali.
Não me digam que a criança pode ter concordado em estar ali. Uma criança não tem maturidade suficiente para decidir, de forma consciente, sabendo todas as implicações que dali vêm, se quer ou não estar ali.

Como profissional que trabalha com o sono infantil, não posso deixar de comentar a forma como a psicóloga lida com a recusa da menina em ir dormir, colocando-a no “banco do pensamento” por se recusar a ir dormir ou porque precisa da presença da mãe.
As crianças têm medos, os adultos têm medos. Quase nenhum adulto adormece verdadeiramente sozinho, todos utilizamos uma moleta antes de dormir. Uns comem antes de deitar, outros precisam de um banho quente, outros precisam de ver TV, outros precisam de ler.
Então, que tal criar um bom ritual de sono com aquela menina, um ritual que a faça entrar no sono de forma tranquila? Que tal perceber porquê que a menina tem medo?
Porque se comporta daquela forma? Pois, é mais fácil colocá-la no “banco”, as abordagens comportamentalistas não se preocupam com a origem dos comportamentos. Então, quando eu chamar o meu marido para a mesa e ele não vier, vou colocá-lo no “banco”. Acham mal? Porquê? Não fizeram isso como forma de ensinar a menina?

Vamos parar de tratar as crianças como seres inferiores, como se não fossem dotados de qualquer direto a opinião, vontade ou gosto. Como naquela parte em que a menina quer levar o cabelo solto e alguém acha que ela tem de prender o cabelo, eu não acharia piada nenhuma que alguém me dissesse como levar o cabelo todos os dias.

Eu não quero filhos obedientes, quero que a minha filha colabore. Quero que a minha filha se sinta respeitada. Quero que a minha filha não faça coisas sempre á espera de um prémio ou castigo, isso fazemos com os cães (que adoro), não com as crianças.

Não me alongo mais no tema porque a minha indignação vai aumentado. Usemos este episódio para refletir, com esperança que não seja transmitido mais nenhum episódio.

Notas sobre este texto: A Ordem dos psicólogos deu parecer negativo ao programa (mas o parecer não é vinculativo). Referi que ela não é psicóloga clínica, uma vez que a psicologia é uma especialização (colégios de especialidade) e a psicóloga em questão não a possui. Este é um texto de opinião.

Andreia Neves

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