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Dia mundial do sono – estamos a tratar o sono da forma que ele merece?

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Assinala-se hoje, 15 de março de 2019, o dia mundial do sono. Toda a gente sabe que dormir é uma função essencial à vida. O homem aguenta mais tempo sem comer do que sem dormir, isto deve querer dizer muita coisa, não?

Longe vai o tempo em que pensávamos que o sono era um processo de “desligar”, de descanso ou repouso da mente. O sono é um processo extremamente ativo. Durante o sono o nosso cérebro não está desligado, ele só está a trabalhar de forma diferente. Em algumas fases do sono, o cérebro pode estar mais ativo do que quando estamos acordados. 

Mas para que serve o sono? Bem, esta pergunta daria um livro. Mas é durante o sono que nós crescemos, que reparamos tecidos, que memorizamos emoções e aprendizagens, que processamos os estímulos a que estivemos sujeitos durante o dia, que produzimos e regulamos a produção de uma série de hormonas importantes, enfim, muita coisa acontece durante o sono. 

Sabiam que memorizamos de forma mais intensa as emoções que vivemos imediatamente antes de adormecer? Então, se calhar, adormecer a chorar é capaz de não muito positivo como já falamos num artigo anterior.

Mas então, porque continuamos a desvalorizá-lo? Porque continuamos a tratar o sono de uma forma tão pouco sustentável?

A privação de sono e a falta de higiene de sono é atualmente considerada um problema de saúde pública. A maior parte das pessoas trata muito mal o seu sono, dorme pouco e mal e está “habituado” a esse registo sem ouvir o seu corpo e sem prestar real atenção ao impacto que isso tem. 

Muitas vezes, em consulta, os pais dizem-me “ele resiste em ir para a cama!”. Em tom de brincadeira pergunto: “E vocês não?”. Quantos de nós tem sono, sente-se cansado, mas faz por responder a mais emails, por fazer mais tarefas domésticas ou por ver mais um episódio da série? Também nós adultos não resistimos ao sono? Os nosso filhos observam-nos muito mais do que o que pensamos. 

Tratamos mal o nosso sono e, consequentemente, tratamos mal o sono das nossas crianças. 

Quando um casal espera um bebé, há uma serie de informação que lhe chega mesmo sem a procurarem: informação sobre o parto, células estaminais, enxoval do bebé, como dar banho, etc. E então do sono? Quantos casais aprendem o que esperar do sono de um bebé e o que fazer para desenvolver um sono saudável? Pois. Então talvez seja necessário começar por aqui – educar a população para o sono. 

Outra questão importante, que queria aproveitar este dia para abordar é sobre a sustentabilidade da família. Muitas vezes, as pessoas abordam-me e dizem que fui recomendada por respeitar o bebé/criança. Claro que fico feliz com esse comentário mas na verdade eu sinto que mais do que isso, é fundamental respeitar a família. E isso, inclui respeito pelas necessidades do bebé, da mãe e do pai como um conjunto. Pouca importa se defendo a cama partilhada ou a amamentação noturna, o importante é ouvir o que realmente importa para que aquela família esteja em paz com sono e orientar medidas que satisfaçam as necessidades de todos promovendo não só um sono saudável mas um ambiente saudável. Claro que isso é um desafio, mas é exatamente isso que me apaixona. 

Tanto me deixam tristes comentários que leio ou ouço como “enquanto amamentares não vais dormir” porque isto não é verdade. Como me deixam tristes comentários como “o teu filho acorda de hora a hora para mamar? É normal, um dia passa.” Esta última frase, muito vezes, é dita a uma mãe que está no seu limite, que sente que não é normal, que não consegue ser a mãe que gostaria porque não descansa. Lá em cima falei da valorização do sono, lembram-se? Pois, isso inclui o sono da mãe. 

Em primeiro lugar, numa criança com múltiplos despertares noturnos podem existir várias causas para esse padrão e, mesmo que seja a mama, da mesma forma que se os vossos filhos tiverem uma dificuldade na escola não os tiram da escola, vão trabalhar essa questão com eles, não é necessário deixar de amamentar, é necessário trabalhar as ferramentas de sono. Dei o exemplo da amamentação porque é um questão extremamente recorrente na minha consulta. 

Por fim, ainda aproveitando este dia, gostava de abordar a questão da responsabilidade profissional. Nunca me pronunciei publicamente sobre isto mas cada vez tenho visto mais situações que me preocupam. Para fazer consulta de sono, para trabalhar em sono é fundamental ter formação válida em Medicina do Sono. A especialização em sono está aberta a médicos, cardiopneumologistas, neurofisiologistas e psicólogos. A especialização requer anos de estudo e experiência em laboratório de sono (mínima de 5 anos). Já me chegaram à consulta vários casos de patologia de sono que passaram totalmente despercebidos aos olhos de pessoas que fazem serviços de consultoria de sono sem serem, se quer, profissionais de saúde. Este tipo de serviços não estão regulamentados como um serviço de saúde. O sono é uma área médica, é um serviço hospitalar e sempre que procuram um profissional na área do sono é fundamental perceber a sua formação profissional de modo a não colocar em risco os bebés e as famílias que procuram ajuda. 

Um grande beijinho, em especial aos pais que andam com sono difíceis 🙂

Andreia Neves

Cardiopneumologista Especialista em Sono

Centro Hospitalar Universitário de São João

Responsável pela consulta de sono pediátrica Gimnográvida e Centro de Pré e Pós Parto 

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